Arqueóloga Niède Guidon inspira teatro para bebês

Julho 07, 2026

A terra tem memória. E, em RUPESTRE – o que a terra conta, ela ganha corpo, som, textura e movimento para dialogar com quem está começando a descobrir o mundo. Novo espetáculo da 2 Mililitros Cia. Teatral, voltado para bebês de até três anos, a montagem faz apresentações gratuitas de 18 de julho a 2 de agosto, sexta-feira, às 11h e 14h; sábado e domingo, às 11h, no Sesc Avenida Paulista.

Desde 2017, a 2 Mililitros Cia. Teatral desenvolve uma pesquisa dedicada à primeira infância e o espetáculo encerra uma trilogia inspirada nos elementos da natureza. Em trabalhos anteriores, como Os Céus e Suas Histórias e Pororoca, o grupo investigou os astros e as águas, sempre conectando natureza e figuras femininas de relevância histórica ou simbólica. Em RUPESTRE – o que a terra conta, a terra fecha o ciclo.

Desta vez, o ponto de partida é a trajetória da arqueóloga Niède Guidon e as pinturas rupestres do Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, um dos mais importantes sítios arqueológicos do mundo. Reconhecida internacionalmente, Niède dedicou sua vida à preservação e ao estudo das marcas deixadas por povos ancestrais nas rochas da região, contribuindo de forma decisiva para a compreensão da presença humana nas Américas. É dessa escuta atenta às camadas do tempo que nasce a poética do espetáculo.

Com direção e dramaturgia de Júlia Mariano e Thiane Lavrador, que também está em cena ao lado de Ana Carolina Inuy, RUPESTRE – o que a terra conta não se propõe a narrar uma biografia ou explicar conceitos arqueológicos. O desafio é outro: transformar memória ancestral em linguagem sensível. “Nosso grande desafio artístico é transformar qualquer tema em linguagem poética. O espectador não deve esperar uma narrativa linear que vá ‘contar uma história’, mas sim uma criação inspirada por essas fontes”, afirma Júlia.

Paisagem sensorial

A montagem parte de uma forte pesquisa corporal e imagética. Movimentos inspirados nas formas da arte rupestre se combinam a diferentes materialidades e sonoridades, criando uma paisagem sensorial que envolve o público. O cenário criado por Lorenza Gioppo propõe uma verdadeira imersão: 56 almofadas de diversos tamanhos, cinco tapetes e uma árvore de 1,80m transformam o espaço à escala dos pequenos espectadores. Para quem mede até um metro de altura, a experiência é monumental.

Os figurinos assinados por Karine Lopes, com técnicas mistas e predominância de tingimento natural, dialogam com a terra e suas texturas. A trilha sonora original de Igor Souza e o desenho de luz de Ariel Rodrigues – pensado como elemento estrutural da cena – ajudam a criar atmosferas que evocam transformações da paisagem.
“Temos uma cena em que luz e som remetem à transformação da paisagem do sertão. Isso não precisa ser dito literalmente. Para nós é isso que quer dizer, mas cada pessoa vai construir sua própria interpretação. Essa é a beleza do teatro”, comenta Thiane.

Bebês são pesquisadores natos

O processo de criação incluiu uma residência artística junto ao Coletivo Antônia, em Brasília, no âmbito do LAB POPI (Laboratório de Poéticas Cênicas para Primeira Infância). A experiência deu às artistas a segurança para dividir as funções de atuação, direção e dramaturgia. “Ideias, temos muitas. O desafio é transformá-las em cena. Estar em cena e na direção exige paciência e artesania. É um tempo de maturação que acaba ditando o ritmo do espetáculo”, reflete Thiane.

Em cena, os bebês são tratados como pesquisadores natos. A lógica é a da descoberta compartilhada. Cada sessão é única, atravessada pelas reações, silêncios, movimentos e curiosidades dos pequenos. Não há um momento específico de interação: ela acontece organicamente, na escuta e na atenção.

“A gente acredita muito na capacidade dos bebês. Essa peça é um convite para que nenhum adulto precise explicar o que está acontecendo. A ausência de uma narrativa linear impede essa ‘tradução’ e abre espaço para que cada criança construa sua própria leitura”, diz Júlia.

Ao final, o desejo das criadoras é provocar o que definem como “leitura complexa”: uma experiência que não se esgota no momento da apresentação. Júlia e Thiane esperam que RUPESTRE – o que a terra conta desperte curiosidade pela história da Niède, pela Serra da Capivara, pela arte, pela ciência. Thiane completa: “Eu desejo que, por 40 minutos, as famílias consigam entrar nesse universo com a gente. E que, depois, alguma imagem, som ou sensação volte à memória e provoque novas perguntas. Se isso acontecer, sentimos que cumprimos nosso objetivo”.

Vivência Arqueologias do Brincar

Inspirada no processo criativo do espetáculo RUPESTRE – o que a terra conta, a vivência Arqueologias do Brincar, que acontece paralelamente as apresentações (18 de julho a 2 de agosto, sábado e domingo, 15h, 15h45 e 16h30), propõe uma imersão sensorial em torno da ideia de escavação e descoberta. O espaço é transformado em diferentes paisagens onde bebês e cuidadores são convidados a explorar como verdadeiros arqueólogos do brincar.

A experiência convida o público a tocar, cheirar, mover e reorganizar o ambiente, encontrando pequenos tesouros. O gesto de colecionar – tão presente nas brincadeiras da primeira infância – é entendido como pesquisa poética das materialidades e suas histórias.

Serviço:

Espetáculo RUPESTRE – o que a terra conta
Com a 2 Mililitros Cia. Teatral
18 de julho a 2 de agosto, sexta-feira, 11h e 14h; sábado e domingo, 11h.
Sesc Avenida Paulista (Arte II – 13º andar) – Avenida Paulista, 119 – Bela Vista, São Paulo.
Livre (recomendado para crianças de até 3 anos) | 40 minutos | Gratuito (retirada de senhas no térreo com 30 minutos de antecedência).

Vivência Arqueologias do Brincar
18 de julho a 2 de agosto, sábado e domingo, 15h, 15h45 e 16h30.
Sesc Avenida Paulista (Tecnologias e Artes – 4º andar) – Avenida Paulista, 119 – Bela Vista, São Paulo.
Livre (recomendado para crianças de até 3 anos) | 30 minutos | Gratuito (retirada de senhas no 4º andar com 30 minutos de antecedência).

Ficha Técnica: Direção e Dramaturgia – Júlia Mariano e Thiane Lavrador. Elenco – Ana Carolina Inuy e Thiane Lavrador. Figurinos – Karine Lopes. Trilha Sonora – Igor Souza. Iluminação – Ariel Rodrigues. Cenografia – Lorenza Gioppo. Boneco – João Araújo. Material Audiovisual – Lyvia Gamerc. Produção – 2 Mililitros Cia. Teatral. Assistência de Produção – Isadora Petrin (PiTô Produções). Assessoria de Imprensa – Nossa Senhora da Pauta. Agradecimentos – Lab POPI - Coletivo Antônia (Brasília/DF) e Instituto Brasileiro de Teatro.

Sobre a 2 Mililitros Cia. Teatral

A 2 Mililitros Cia. Teatral data de 2017 e é fundada por Thiane Lavrador e Júlia Mariano. O espetáculo de estreia da companhia Cadê?, destinado à primeira infância, circulou pela cidade de São Paulo tendo feito apresentações em teatros, livrarias, espaços culturais e recreativos. Em 2020, durante o período de isolamento social, a companhia começou uma extensa programação virtual. A primeira trazia vídeos, indicações de obras, lives e bate-papos em comemoração ao aniversário de William Shakespeare. Logo depois foi a vez do quadro É de Pequenino Que Se Torce o Pepino, onde o público foi convidado a compartilhar histórias de suas infâncias, que se transformaram em material cênico no formato de vídeos curtos disponibilizados nas redes sociais (três dos vídeos foram contemplados no Festival UP, o maior festival de arte online da América Latina). Em junho, o Arraiá 2ML contou com uma programação voltada às comemorações juninas incluindo contação de histórias, bingo, lives gastronômicas, musicais e apresentações ao vivo.

Em dezembro de 2021 o grupo foi contemplado pelo Edital de Apoio à Projetos Descentralizados de Múltiplas Linguagens da Secretaria Municipal de Cultura da Cidade de São Paulo e circulou por oito Casas de Cultura da capital paulista com o projeto Cadê? O que? Achou! – Ações Poética para a Primeira Infância que apresenta uma programação de quatro atividades para o público de 0 a 6 anos. Já em 2022 estreia um novo espetáculo para a primeira infância Os Céus e suas Histórias integrando a programação do Festival de Férias do Teatro UOL. No ano seguinte, o espetáculo foi contemplado na convocatória Pequeno Formato do Instituto Brasileiro de Teatro possibilitando uma temporada de 16 apresentações realizadas no Espaço Sobrevento. Em 2024 o espetáculo integrou o XVIII Festival de Teatro da Amazônia e fez uma circulação pelo Rio de Janeiro através do SESC Pulsar. No mesmo ano o coletivo estreia o espetáculo CATIMBA – A Reviravolta do Glorioso Grêmio Recreativo de Pirapora da Vila Pauliceia e seu Elenco Incomum, voltado ao público de 11 a 17 anos. A primeira temporada realizou 20 apresentações e passou por espaços como o Teatro Arthur Azevedo e o Museu do Futebol. Em 2025 estreia Pororoca primeira montagem para bebês da companhia que utiliza palavras (nas peças anteriores a companhia prioriza outras maneiras de comunicação sem ser verbal, como a linguagem corporal ou por meio de sons e luzes).

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