Fevereiro 17, 2026
Sucesso de crítica e público em diversas temporadas, o musical Bertoleza, da Gargarejo Cia Teatral, estreou em 2020 e conquistou o prêmio APCA de melhor espetáculo daquele ano. E, para quem ainda não conseguiu assistir ao trabalho, a Cia. Gargarejo faz uma nova temporada gratuita no Teatro Alfredo Mesquita, de 20 de fevereiro a 1º de março de 2026, às sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 19h. Aos domingos terá intérprete de libras e roda de conversa.
A montagem, com adaptação, direção e canções originais de Anderson Claudir, que também assina a dramaturgia ao lado de Letícia Conde, é inspirada no livro “O Cortiço”, clássico naturalista de Aluísio Azevedo. Mas, desta vez, o público conhece a história sob ponto de vista da Bertoleza, uma mulher negra que é tão importante para a construção do romance quanto o próprio João Romão, o protagonista original.

Na trama, o oportunista Romão propõe uma sociedade à escrava Bertoleza, prometendo comprar a alforria dela. Eles começam uma vida juntos e constroem um pequeno patrimônio formado por um enorme cortiço, um armazém e uma pedreira.
Depois de acumular capital considerável, o ambicioso João Romão já não sabe como se tornar mais rico e poderoso. Envenenado pelo invejoso Botelho, ele decide se casar com Zulmira, a filha de Miranda, um negociante português recentemente agraciado com o título de barão. Mas, para isso, precisa se livrar da amante Bertoleza, que trabalha de sol a sol para lutar pelo patrimônio que eles construíram juntos.
Para a companhia, o grande desafio foi fazer com que uma narrativa do século 19 questionasse e problematizasse as relações criadas nos dias de hoje. Por isso, o projeto iniciado em 2015 foi ganhando novos contornos. “Quisemos investigar uma identidade brasileira, que vem da diáspora africana, e pensar em como isso nos afeta artisticamente. Assim, podemos criar novos signos para essa geração e dar uma voz para essa terra periférica”, conta Claudir.
No processo, o coletivo procurou a força da figura de Bertoleza em outras mulheres negras brasileiras negligenciadas pela História. Durante a encenação, o elenco relembra as histórias da vereadora Marielle Franco, militante da luta negra assassinada em março de 2018; da escritora Carolina Maria de Jesus, famosa pelo livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada; da jornalista e professora Antonieta de Barros, defensora da emancipação feminina que foi apagada dos livros de História; da escritora Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista brasileira; e da guerreira Dandara, que viveu e lutou no período colonial.
A protagonista do espetáculo é interpretada pela atriz Lu Campos. E o elenco ainda conta com Ali Baraúna, Taciana Bastos, Roma Oliveira, Cainã Naira, Larissa Noel, Palomaris, Edson Teles, Thiago Mota e Welton Santos e os stand-ins Lilian Rocha e Anderson Claudir.
Completam a ficha técnica a direção musical de Eric Jorge, as músicas de Anderson Claudir, Andréia Manczyk, Eric Jorge e Juliana Manczyk, a preparação vocal e assistência de direção musical de Juliana Manczyk, a preparação de elenco de Eduardo Silva e a preparação corporal e coreografia de Taciana Bastos.
Relação profunda entre vida e obra
Para Lu Campos, interpretar Bertoleza tem um significado ainda mais profundo. No processo desde 2015, ela conta que vivenciou um chamado ancestral em 2017: suas antepassadas maternas deram-lhe a missão de quebrar o ciclo de opressão vivenciado por sua família desde os tempos de escravidão. “Espero que as mulheres pretas se sintam bem representadas na peça e a partir disso, busquem seus lugares de protagonismo nos variados âmbitos da vida”, conta.
Para a atriz, estar nesse processo contribui para a sua expansão de consciência. Em busca de mais respostas sobre sua ancestralidade, ela também cursou a pós-graduação em Matriz Africana pela FACIBRA/Casa de Cultura Fazenda Roseira. “As pessoas precisam perceber quão rica e diversificada é a matriz africana, por isso ela deve ser resgatada e valorizada. Afinal, a África é o ventre do mundo”, emociona-se.
Sobre a Gargarejo Cia Teatral
Gargarejo Cia Teatral é um coletivo de artistas dedicado à produção de arte popular, orientado por uma perspectiva étnico-racial que tensiona as relações entre colonização e identidade. O grupo coloca a vivência periférica no centro da cena, afirmando-a como potência estética e política. Fundada em 2014, em Campinas (SP), a companhia desenvolveu, em seus primeiros anos, trabalhos a partir de obras fundamentais da dramaturgia e da literatura brasileira, como A Cartomante, de Machado de Assis; Sonhos Roubados, de Anderson Claudir; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; e Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente.
Em 2015, a Gargarejo inicia a pesquisa cênica sobre O Cortiço, de Aluísio Azevedo, que dá origem à microcena Bertoleza – uma pequena tragédia, ponto de partida do processo investigativo “O Cortiço por elas”, dedicado a revisitar a obra sob a perspectiva das personagens femininas. A partir de 2017, o grupo se estabelece na cidade de São Paulo, aprofundando experimentações cênicas, leituras públicas e rodas de conversa, em um movimento contínuo de criação em diálogo e retroalimentação com o público.
Em fevereiro de 2020, estreia BERTOLEZA no SESC Belenzinho, em temporada com ingressos esgotados, consagrando-se com o Prêmio APCA de Melhor Espetáculo do Ano. Em 2022, a companhia realiza o projeto Machado Real (PROAC), que resulta na leitura musical Quincas e no curta-metragem O Espelho XXI, adaptações das obras Quincas Borba e O Espelho, de Machado de Assis, reafirmando o compromisso do grupo com releituras críticas do cânone brasileiro.
Ficha técnica
Direção, adaptação e letras: Anderson Claudir. Dramaturgia final: Anderson Claudir e Letícia Conde. Direção musical: Eric Jorge. Músicas: Anderson Claudir, Andréia Manczyk, Eric Jorge e Juliana Manczyk. Preparação vocal e Assistência de direção musical: Juliana Manczyk. Preparador de elenco: Eduardo Silva. Preparação corporal e coreografia: Taciana Bastos. Cenografia e figurino: Dani Oliveira e Victor Paula. Assistente de cenografia e figurino:. Gabriela Moreira. Visagista: Victor Paula. Diretor de Palco: Léo Magrão. Designer e operação de Luz: Andressa Pacheco. Vídeos: Aline Almeida. Desenho de som: LABSOM - Laboratório Sonoro. Operação de som e microfonação: Kleber. Marques e Julia Mauro . Elenco: Lu Campos, Ali Baraúna, Taciana Bastos, Roma Oliveira, Cainã Naira, Larissa Noel, Palomaris, Edson Teles, Thiago Mota e Welton Santos. Stand-ins: Lilian Rocha e Anderson Claudir. Direção de Produção: Manczyk Produções
Sinopse
Adaptação musical de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, obra clássica da literatura naturalista brasileira, em que o protagonismo é invertido. A voz agora é de Bertoleza: mulher, negra e escravizada que se relaciona com João Romão, um português ambicioso e oportunista. Bertoleza é o dedo na ferida, é o nó expulso da garganta, a voz que pergunta: E a Bertoleza?
Serviço
Bertoleza, da Gargarejo Cia Teatral
Temporada: 20 de fevereiro a 1º de março de 2026
Sextas e sábados 20h; domingos às 19h
Aos domingos há intérprete de libras e roda de conversa
Teatro Alfredo Mesquita - Av. Santos Dumont, 1770 - Santana, São Paulo
Ingresso: gratuito | Retirada na bilheteria com 1 hora de antecedência
Duração: 90 minutos
Recomendação etária: 12 anos
Acessibilidade: o espaço possui acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida
Siga o grupo nas redes sociais: Facebook @gargarejociateatral e Instagram @gargarejocia
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