MAC USP abre exposição sobre usos criativos e dissidentes das tecnologias digitais

Novembro 26, 2025

O Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) inaugura no dia 29 de novembro, às 11h, a exposição ANTAGONISTAS: resistências algorítmicas, que reúne obras de 26 artistas ou coletivos e tem curadoria de Bruno Moreschi, artista visual e professor de novas mídias na Universidade de Aalto, Gabriel Pereira, pesquisador e professor de Inteligência Artificial e cultura digital na Universidade de Amsterdã, e Heloisa Espada, professora de história a arte e curadora do MAC USP.

Em um momento em que as promessas da Inteligência Artificial dominam o debate público, a exposição propõe um contraponto histórico: mostra como, desde os anos 1960, artistas, ativistas e cientistas resistem a tecnologias hegemônicas de informação, fazendo uso crítico e criativo dessas mesmas tecnologias. Com mais de 30 obras nacionais e internacionais, a exposição discute temas centrais no debate público contemporâneo, tais como economia de dados, comunicação em rede, obsolescência e sistemas de monitoramento e vigilância. Participam artistas como Analívia Cordeiro, Paulo Bruscky, Regina Silveira, Waldemar Cordeiro, Giorgio Moscati, Eduardo Kac, Isidoro Valcárcel Medina, Jonier Marin, Regina Vater, Rafael França, Gu da Cei, Cornelia Sollfrank, Mariana Manhães, Gustavo von Ha, Leandra do Espírito Santo e Giselle Beiguelman. A maior parte dos trabalhos pertence ao acervo do MAC USP, que foi pioneiro no colecionismo de novas mídias no Brasil. Na década de 1970, o museu foi o primeiro a incorporar obras de vídeo em seu acervo e, depois, um dos primeiros a colecionar fotocópias, videotextos, softwares e NFTs. Além das obras do acervo do MAC USP, a exposição inclui projetos inéditos de Glicéria Tupinambá, Irineu Nje'a Terena e Luciara Ribeiro.

Obra de Waldemar Cordeiro

"O debate público sobre as tecnologias algorítmicas segue marcado por um presentismo aterrador: ignora como chegamos aqui e como estamos esculpindo o futuro com nossas decisões", observam os curadores. A exposição busca subverter essa lógica mostrando que outros modos de pensar e fazer tecnologia sempre foram possíveis. A seleção de obras envolveu uma cuidadosa pesquisa no acervo MAC USP com o objetivo de compreender e contextualizar trabalhos pioneiros realizados especialmente na América Latina. Mesmo com recursos limitados, esses artistas criaram redes alternativas de comunicação, burlaram censuras e inventaram formas criativas de lidar com dados e algoritmos – experiências que nos ajudam a imaginar futuros tecnológicos diferentes do controle atual das big techs e da vigilância por Inteligência Artificial. Nos anos 1970, por exemplo, Paulo Bruscky e Jonier Marin usaram o sistema postal para criar redes de comunicação e circulação de arte como reação às ditaduras latino-americanas. Hoje, artistas como Giselle Beiguelman e Gu da Cei encontram brechas nos sistemas algorítmicos para criar espaços de expressão e resistência.

A exposição se organiza em quatro núcleos temáticos. O primeiro deles, Rupturas paleocibernéticas, apresenta experiências históricas com tecnologias digitais, em especial nos anos 1960 e 1970. Integram este núcleo exemplos das primeiras experiências com arte computacional realizadas no Brasil, como Derivadas de uma imagem (1969), de Waldemar Cordeiro e Giorgio Moscati, o poema digital Reabracadabra (1985), de Eduardo Kac, realizado com a antiga tecnologia do videotexto, e o website The book after the book (1999), de Giselle Beiguelman, trabalho pioneiro da net art e da ciberliteratura no mundo.

O segundo núcleo da exposição, Contaminações em rede, traz exemplos de redes informacionais dissidentes criadas ou contaminadas por artistas, mesmo antes do advento da Internet. Obras históricas de arte postal de artistas como Paulo Bruscky são apresentadas junto com trabalhos recentes como Canal*MOTOBOY (2007, 2008), realizado pelo artista espanhol Antoni Abad em parceria com um grupo de motoboys da cidade de São Paulo. Num momento em que os smartphones não eram comuns, os motoboys ganharam celulares com câmeras para registrar e transmitir seus cotidianos.

Os trabalhos reunidos no terceiro núcleo, Extração, subversão e arquivamento de dados, questionam a pretensa neutralidade dos "dados", criticam como eles são coletados e quem tem acesso a eles, chamando a atenção para questões de consentimento, apropriação e privacidade. Em 2020, incomodado com a presença de câmeras de reconhecimento facial nos ônibus de Ceilândia, no Distrito Federal, o artista Gu da Cei tornou-se a primeira pessoa no Brasil a solicitar, via Lei de Acesso à Informação, suas próprias imagens capturadas sem autorização por esse sistema de segurança. No vídeo Imagens de acesso v2 (2020), o artista se reapropria das próprias imagens no transporte público para expor os sistemas de vigilância ao nosso redor. Na mesma seção, outros projetos comissionados especialmente para a mostra ampliam essa discussão. A instalação Cosmotécnica das bordunas tupinambá (2024-2025), de Glicéria Tupinambá, mapeia bordunas de seu povo guardadas em museus europeus, questionando como objetos viram "dados" catalográficos e quem tem direito de acessá-los e cuidar deles. Já As Minhas fotografias (2024), da artista e curadora Luciara Ribeiro, questiona quem tem direito de existir em imagens. Partindo de seu arquivo pessoal e em parceria com o coletivo JAMAC, ela atualiza um famoso texto seu publicado na revista ZUM e aponta como raça e classe determinam quem é fotografado e lembrado.

As obras do último núcleo, Gambiarras, erros e corpos, ressignificam noções de erro e ineficiência, mostrando como a apropriação, modificação e manutenção de tecnologias "obsoletas" pode se tornar um ato político. O website net.art generator (ver5_b) (2003, 2017), da artista alemã Cornelia Sollfrank em parceria com Winnie Soon, transforma o ato de reparar um software que já não funciona mais numa proposição artística. Já as esculturas cinéticas Liquescer (Jarro Rosa) (2007) e Liquescer (Jarrinho) (2008), de Mariana Manhães, feitas com motores de micro-ondas reaproveitados, circuitos eletrônicos e plástico exploram os limites entre máquinas e organismos.

Embora seja crítica à lógica capitalista que rege o funcionamento dos algoritmos, a exposição vê positivamente a relação das artes com as tecnologias. Para os curadores, "Antagonistas de diferentes épocas mostram que sempre existiram e existirão outras formas de imaginar e construir nosso futuro tecnológico". Em um momento em que a Inteligência Artificial é apresentada como inevitável e neutra, a exposição nos lembra que artistas nunca aceitaram passivamente as tecnologias de seu tempo. A exposição aponta caminhos antagonistas para fortalecer as resistências contra as opressões algorítmicas de hoje.

Antagonistas: resistências algorítmicas
Curadoria: Bruno Moreschi, Gabriel Pereira e Heloisa Espada.
Abertura: 29 de novembro, 11h, com visita guiada pelos curadores.
De 29 de novembro de 2025 a 22 de fevereiro de 2026
MAC USP - Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301 – Ibirapuera - 11 2648.0254
Terça a domingo das 10 às 21 horas
Entrada gratuita
Apoio do projeto Decay Without Mourning: Future Thinking Heritage Practices (Riksbankens Jubileumsfond e MAC USP).

Bios dos curadores:
Bruno Moreschi é artista visual, pesquisador do projeto Decay Without Mourning: Future Thinking Heritage Practices (Riksbankens Jubileumsfond e MAC USP) e professor de novas mídias da Universidade de Aalto (Finlândia).
Gabriel Pereira é pesquisador e professor de Inteligência Artificial e Cultura Digital na Universidade de Amsterdã (Holanda).
Heloisa Espada é professora de história da arte e curadora do MAC USP.

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