Televisão
por Elmo Francfort Ankerkrone
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TV Paranaense

A TV Rádio Emissora Paranaense... Mais um capítulo do ano de 1960...Esta televisão que foi a segunda emissora comercial de um proprietário não ligado aos grandes grupos televisivos, uma televisão que inovou com seus poucos recursos. Este canal 12 de Curitiba foi a primeira emissora do Paraná. Bem vindos ao início da história da TV Paranaense, atual Rede Paranaense de Televisão, umas das principais afiliadas a Rede Globo.

Um jeitinho de Paulista

O início da TV Paranaense muito lembra a TV Paulista. E vou já explicar o por quê... A TV Paulista foi construída pelo Deputado Ortiz Monteiro para fazer sua campanha política pela televisão, enquanto a Paranaense também foi construída com este intuito, já que seu proprietário Nagib Chede queria se eleger a um cargo político também... E ambos conseguiram! Ambos foram pioneiros, um em São Paulo e outro em Curitiba por usarem o meio televisivo para campanhas políticas.

Os dois canais nasceram com uma pequena equipe, também vinda do rádio (no caso da Paranaense, da PRB-2 Rádio Clube Paranaense - fundada em julho de 1924 e conhecida por aprimorar o meio rádio na região, com radionovelas e propaganda publicitárias de qualidade) e ambas se instalaram em um pequeno edifício...Só que a Paulista no Edifício Liége na Consolação possuía mais salas do que os pequenos estúdios da TV Paranaense no Edifício Tijucas.

O Edifício Tijucas até hoje existe, na velha esquina da Avenida João Pessoa (atual Avenida Luiz Xavier), com a Rua Cândido Lopes, que é o começo da antiga Rua XV de Novembro, atual Rua das Flores - próximos da Biblioteca Municipal de Curitiba.

A TV Paranaense ocupava o 21º andar do prédio (o último aliás!), que tinha em suas instalações uma sala de TV onde as pessoas checavam se tudo que estava indo ao ar ia com perfeição; um switcher com todos os equipamentos para dirigir a emissora, sendo que neste espaço ainda arranjavam um cantinho para efetuar a projeção de filmes e outros enlatados. Subindo uma pequena escada, dariam acesso à cobertura, que saía para fora do prédio onde estava a antena da TV Paranaense. Nesta cobertura ainda havia uma salinha e perto dela um gigantesco transmissor do canal 12. Voltaremos a falar do Tijucas daqui a pouco.

Mais que um estágio

No ano de 1960, meu avô Julio Correira Francfort, o único dos Correia Francfort que não nasceu em Curitiba, estava de volta à cidade por causa da firma que trabalhava, a Macife (Madeira, Cimento e Ferro), que possuía uma sede na capital paranaense.

Nesta época, seu filho Luiz pretendia também seguir na carreira na Macife, enquanto estava afastado do meio televisivo. E foi assim que Luiz Francfort conseguiu um estágio na Macife - Curitiba de apenas 3 meses, mas que foram inesquecíveis. Ele gostava de televisão, só que o meio ainda não dava dinheiro suficiente pra ter um sustento razoável.

E para ajudá-lo no que precisava, no carnaval, vieram para ficar em Curitiba minha vó Adelia e minha mãe, Alzira (meu avô ia e voltava sempre por causa da Macife - São Paulo). E foi no Edifício Tijucas que alugaram um pequeno apartamento, com uma pequena salinha e um quarto com três camas. O Tijucas tem uma galeria embaixo e era para ser um edifício totalmente comercial. Só que não possuía pessoas e empresas suficientes para ocupá-lo comercialmente. E assim o Edifício Tijucas lotou de estudantes que vinham de outras cidades e precisavam de um lugar barato para morar.

Francfort, Adelia de Freitas Francfort e Alzira Francfort Foi assim que os três ocuparam um dos apartamentos do 13º andar do Tijucas. Isso porque para Luiz e Alzira viver perto da emissora foi um passo muito grande: era só subir 8 andares que já estavam nos estúdios da TV Paranaense. À direita, Luiz Francfort, Adelia de Freitas Francfort e Alzira Francfort Ankerkrone, respectivamente. Foto de menos de um ano antes dos três irem para Curitiba em 1960. Arquivo pessoal - 27 de junho de 1959.

Epa! Antecipei a história do Tijucas sem dizer o que tinha a ver minha família com a TV Paranaense... Certa vez, numa festa do Rotary Club (ou seria o Lions?), um dos representantes da Macife-Curitiba foi meu tio Luiz. E foi nessa festa que ele conheceu o político Nagib Chede, dono da Rádio Clube Paranaense e também o diretor da rádio, um jovem de nome Renato Mazanek. E apresentaram Luiz dizendo que ele tinha experiência com televisão e que já havia trabalho da TV Tupi de São Paulo, a pioneira da América Latina. Nagib Chede se entusiasmou e disse que estava implantando o meio televisivo na cidade. Na hora chamou Luiz para fazer parte.

Por prazer Luiz começou a dividir o seu dia entre a paixão pelo meio e o um trabalho para sustentá-lo melhor. Assim, todos os dias, de manhã Luiz ia para a Macife, à tarde descansava e a noite subia com Alzira para o último andar para colocar no ar a TV Paranaense. E foi lá que ganharam a amizade de Renato Mazanek, que todas as tardes filava um café de Dona Adelia, conversavam os três na salinha do apartamento do 13º andar e depois iam trabalhar juntos no canal 12.

Fase experimental

E a TV Paranaense começou quando Nagib Chede com uma câmera RCA instalada no interior das Lojas Tarobá e com o transmissor  do canal 12 em uma sala do Tijucas, emitiu imagens e sons através das ondas de rádio. Quando mudaram para o Edifício Tijucas a equipe já conseguia desenvolver melhor a criatividade, mesmo com os poucos recursos.

Quando Luiz e Alzira entraram na Paranaense, ela já havia ido ao ar, bem no início de 1960. A antena do canal já estava no Tijucas. Aliás, uma curiosidade que minha mãe lembrou: nenhuma casa de Curitiba conseguia pegar televisão com pelo menos 3 metros de altura. Em São José dos Pinhais as antenas tinham de 7 a 9 metros! O pequeno Tijucas na época era o prédio mais alto da cidade, de uma Curitiba lotada de casas...

Meire Nogueira O primeiro comercial já nesta fase foi o das Lojas Tarobá, que gravado ao vivo, foi apresentado por Meire Nogueira e produzido por Pedro Stier. E Renato Mazanek implantou a técnica de filmes para produzir comerciais, como o da Lord Magazine. À direita, Meire Nogueira como garota-propaganda de TV em São Paulo. Década de 50. Arquivo CCSP.

A TV Paranaense tinha grande profissionais... Alcides Vasconcelos (telejornalismo), Renato Mazanek (diretor da rádio, diretor de TV, ator e que na fase comercial da emissora criou um sistema de gerador de caracteres numa caixa de madeira - com um lápis eletrônico! - e uma máquina de efeitos especiais para a televisão feito com um cone de cartolina, que fazia uma máscara na câmera e tornando isto numa cena pequena na tela); Romualdo Ousaluk (diretor artístico); Silas de Paula (cameraman e ator improvisado, no que se saiu muito bem), Moraes Fernandes e o dono do primeiro rosto aparecer no vídeo, Elon Garcia (apresentadores), até hoje assíduo "garoto-propaganda" de televisão. Contavam também com a colaboração de um palhaço profissional Ulisses de Triana, que fazia a uma bem feita maquiagem nos atores.

Na fase experimental foi criado um musical com Rubens Augusto nos moldes que Cassiano Gabus Mendes fazia para Agnaldo Rayol, sendo que Alzira (minha mãe) foi produtora do programa. Elon Garcia fazia a locução em "off" criando um enredo, enquanto Rubens Augusto cantava e interpretava a trama. Os objetos eram improvisados, pertencendo a própria equipe da TV (certa vez minha mãe chegou a emprestar suas luvas para servir de objeto principal de um musical da emissora... Eles corriam até o 13º andar, pegavam objetos e roupas que achavam que poderiam ser úteis e ajudavam o resto da emissora "emprestando" o figurino). Minha mãe teve oportunidade de sentir o gosto de ser diretora artística da emissora.

Meu tio Luiz era diretor de TV e as vezes, ele dava sinais pelo vidro do switcher para Alzira trocar a iluminação do estúdio e de longe trocavam as luzes, depois voltando para a equipe que ficava atrás das câmeras

Em 30 de março de 1960, no principal jornal de Curitiba saía uma nota assim, com tal grafia: "Apreciamos o trabalho de Direção de TV, de LUIZ ANTONIO FRANCFORT. O rapaz possue experiencia, visto já haver exercido tal função no canal 3, em São Paulo. Outra boa aquisição da TV, canal 12, que demora para entrar definitivamente. Morosidade e burocracia no Ministério, é claro."

jornal de Curitiba

Já quiseram que minha mãe fosse apresentadora de TV, sendo a animadora infantil do programa "Clube da Piazada", mas ela disse que o que queria era ficar sempre atrás das câmeras. E foi isso que aconteceu... Dona Patrícia, que já havia tido uma experiência com televisão no Rio de Janeiro, ocupou seu lugar e tornou-se apresentadora daquele programa infantil.

Alzira era uma profissional que fazia de tudo, mais ainda na parte da produção. Para definir a passagem de tempo nos teleteatros ela rodava um calendário na tela e eram mudadas algumas peças do vestuário, como casaco, boina, etc.... Sendo que muitas vezes ela ajudava os atores a se vestirem.

Criaram-se dois teleteatros onde os atores vieram da equipe do rádio, como Elza Passos e Renato Mazanek; funcionárias de firma, como Ivone da Macife. Derly do Rocio era cantora do canal, também vinda do rádio. Voltando a falar do cameraman Silas de Paula, ele deixava as vezes a câmera para interpretar os personagens, enquanto os outros vigiavam a TV.

Quanto os dois irmãos estavam prestes a voltar à São Paulo, chegava à TV Paranaense Eunice Nogueira e sua famosa irmã Meire Nogueira para serem apresentadoras e garotas-propaganda.

A Paranaense usava e abusava da criatividade... Criavam até recursos de contra-regra adaptados... Certa vez, numa cena de revelação no teleteatro (onde hoje a equipe de sonoplastia faria um famoso "taaaaannn"), o ator Renato Mazanek se inclinou perto de um piano aberto e fez a revelação. Logo após, sem o público reparar, apertou as teclas do piano produzindo o "taaaaannnn" e deixando o público maravilhado com a sonoplastia...

E a TV Paranaense não possuía só garotas-propagandas, como Tônia Maria e as irmãs Nogueira, mas também garotos-propagandas, como Jamur Júnior e Flávio Meneghini.

Através da TV Paranaense meu tio Luiz Francfort e Renato Mazanek fizeram uma pioneira cobertura sulina da inauguração de Brasília em 21 de abril de 1960.

O controle-remoto

Um capítulo importante deste pioneirismo da TV Paranaense foi quando ocorreu o Congresso Eucarístico no bairro Centro Cívico, que o canal 12 realizou um feito que até hoje causa surpresa para os que escutam falar dele. O "Doutor Olavo" como os colegas chamavam o primeiro câmera da América Latina e do Brasil (vai ter uma coluna só pra ele, merecidamente!), ficou a noite inteira mexendo com os aparelhos na salinha perto do transmissor. E todos estavam preocupados com a cobertura do Congresso Eucarístico, onde ele era o coordenador. Mas a emissora precisava ao mesmo tempo ser colocada no ar por ele. E como ele estaria nos dois lugares ao mesmo tempo? Foi quando no dia ele apresentou um controle-remoto a equipe (algo inédito no mundo!) e em um click colocou no ar a emissora, num raio de 1 km! E patern com a música "Fascinação" entrava no ar... Eram 6 horas da noite e a emissora entraria no ar entre uma a duas horas depois com programação. Nunca ninguém havia feito aquilo! E hoje é um perigo se utilizar um sistema desse tipo para ligar um transmissor de TV.

E foi assim gerado o Congresso Eucarístico nó fim da Rua Barão do Serro Azul (quem diria, na rua com o nome do tio-tataravô), próximo ao Passeio Público e aonde hoje se encontra o Shopping Müller. Havia uma imitação das catacumbas romanas onde os católicos se escondiam. Gravaram tudo! A Paranaense, ao contrário das várias emissoras da época (até a Tupi) possuía uma pequena câmera da RCA, de alta tecnologia, um pouco maior do que as pequenas câmeras domésticas de hoje.

E em 11 de maio de 1960 acabou o estágio de meu tio na Macife e minha mãe havia recebido sua carteira de motorista (que tirou em Curitiba, depois de treinar na direção por várias vezes nas ruas do Batel). Deixavam para trás lembranças e saudades da antiga Curitiba.

A fase comercial

Permitido pelo Ministério das Comunicações, a TV Paranaense é registrada como emissora em fase comercial em 29 de outubro de 1960, que muitos consideram como data de fundação da emissora... Errado! Mas o mesmo aconteceu em dezembro do mesmo ano com a TV Paraná (canal 6), das Emissoras Associadas.

E por décadas competiram em Curitiba igualitariamente a TV Paranaense com a TV Paraná. A TV Paraná tinha a maior rede de televisão por trás, enquanto a TV Paranaense tinha a criatividade, o pioneirismo e o esforço. Mas a TV Paranaense um dia se rende ao sistema em rede e vira afiliada da Rede Globo, uma rede em ascensão, enquanto a principal rede do país, a Rede Tupi estava por trás da TV Paraná.

Hoje a líder de audiência ainda é a TV Paranaense, enquanto a TV Paraná seguiu um novo rumo... Isso porque a Rede Tupi vendeu a emissora ainda no início da década de 70, antes que falisse (coisa que aconteceu 10 anos depois). A TV Paraná virou afiliadas de várias emissoras, até se unir com a TV Tropical de Londrina e formar sua própria rede: a Rede OM Brasil, que daria origem à CNT.

A Paranaense mudou-se do Edifício Tijucas quando começou a crescer, passou por algumas sedes até chegar ao belo Palácio Lupion, no bairro do Batel, que é hoje sua sede.

Em 1998 quando voltamos à Curitiba, reencontramos Renato Mazanek - que hoje com a sua agência publicitária "Teorema Propaganda" continua a viver nesse mundo encantado dos comerciais de TV. As vezes recebemos a visita e telefonemas de Mazanek aqui em São Paulo, um outro gênio da Paranaense, um colega ideal para o "Doutor Olavo". E fomos ao Hotel Tibagi, que fica justamente na frente do Edifício Tijucas...Hoje pequeno perto dos prédios que o cercam. Mas o passado voltava ali, para matar saudades pela janela do hotel.

E encerro esta coluna, dedicada aos profissionais pioneiros da TV Paranaense (principalmente a Renato Mazanek e a memória de Olavo Bastos Freire), finalizando com a música tema da emissora em seu test-patern e que era tocada em piano:

"Fascinação

Os sonhos mais lindos sonhei

De quimeras mil um castelo ergui

E no teu olhar tonto de emoção

Com sofreguidão mil aventuras previ

O teu corpo é luz, sedução

Poema divino cheio de esplendor

Teu sorriso prende, inebria, entontece

És fascinação, amor."

Até nossa próxima atração! Neste mesmo bat-horário, neste mesmo bat-canal!

TV Leitor

- Meus parabéns ao jornalismo da TV Gazeta, que no dia 16 de julho junto com o Jornal "Gazeta Mercantil" implantou três jornais muito bem feitos! O "Jornal da Gazeta", o "Mercado" e o "Primeira Página". Parabéns! E leitores, vale a pena visitar o site do telejornalismo da emissora, que apresentam via internet a transmissão dos programas e também mais duas transmissões exclusivas: uma em inglês e outra em espanhol. Vejam no endereço: www.jornaldagazeta.com.br. Vale a pena!

- Agradeço pelos elogios feitos por Giancarlo Conti, da Rede Globo, à minha coluna. E é bom saber que além de profissionais do ramo, temos apaixonados pelo que fazem. Porque a televisão sempre será esta caixinha cheia de "fascinação" - como a música que hoje aqui citamos.

- E ao leitor Leandro Tavares Guimarães o agradecimento pelas fotos dos antigos estúdios do SBT que me mandou. Um dia as colocaremos nesta coluna, que como você disse "são partes da história da televisão brasileira que não podem cair no esquecimento."

- Izaías Correia, gostaria de te dizer que não possuo o "Hino do Falcão Negro", mas estou procurando alguém que possua. Continuarei tentando te ajudar com o que posso. Se alguém possuir, me mande uma mensagem!

- E no próximo dia 21, dou parabéns por mais um ano de vida a Fábio Luiz Nunes, meu grande amigo, que sempre me motivou a escrever meus artigos.


Imagens

 

- Artigo publicado no Diário do Paraná em 30 de março de 1960, sobre o desempenho de Luiz Francfort na TV Paranaense. Arquivo pessoal.

 

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